Luto na infância. Como conversar sobre a morte com as crianças?

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A necessidade de conversar sobre a morte com os pequenos pode surgir com base na curiosidade deles pelo assunto ou caso aconteça em seu contexto de vida - seja a morte de um familiar, de um amigo, de um animalzinho de estimação ou mesmo se eles presenciarem alguém querido em luto pelo falecimento de outro alguém.


Foto: reprodução

É muito importante, inúmeros profissionais que estudam e trabalham com a saúde mental na infância nos orientam, não esconder dos jovens o nosso sofrimento, nem mesmo a verdade. É crucial para o desenvolvimento perceber que seus pais, seus cuidadores e os demais adultos ao seu redor ficam tristes, ficam com raiva, ficam frustrados... ficam em luto.  Também é muito importante que seja dito a verdade às crianças quando alguém falecer: se deve evitar dizer que a pessoa viajou, que vai voltar... pois atitudes assim podem desencadear o sentimento de abandono, além de desfavorecer a confiança, pois em algum momento a criança entenderá a verdade e poderá se sentir enganada. 

Ser exposto, de forma cuidadosa, às complexidades da vida é extremamente favorável para um crescimento e amadurecimento saudáveis. Entender e aprender que a vida não é só feita de momentos felizes é fortalecedor, uma vez que auxilia na construção de resiliência. 


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Devemos tentar não ser tão simplórios nem tão complexos nos momentos de conversa com os pequenos, falando com eles no seu nível de entendimento. Missão difícil, né? Mas algo que ajuda é iniciar a conversa perguntando à criança o que ela acha que é, o que ela acha que aconteceu...? Por exemplo: "O vovô está triste. Você sabe por que?". A partir daí, podemos seguir fazendo novas perguntas, a fim de direcionar o pequeno na construção de um raciocínio, ou mesmo usar os instrumentos de linguagem trazidos por ele, para corrigir ou complementar suas impressões. Não precisamos nem devemos tentar "esgotar" o assunto em uma conversa... pois a medida que a criança vai crescendo, vai crescendo também suas capacidades de compreensão e, assim, naturalmente, ela vai agregando tópicos e perspectivas sobre a situação.

Além das ocasiões de "sentar e conversar", há diversos filmes e livros que abordam o tema - lúdicos, delicados e próprios para a faixa etária - e que podem ser nossos grandes aliadosAssim como passeios, brincadeiras, jogos, desenhos, pinturas... podem ser excelentes para que a criança consiga se expressar, lembrar, processar e comunicar suas emoções. Nestes momentos juntos, auxilie-a nomeando e compartilhando seus sentimentos (tristeza, saudade...).



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Caso os adultos envolvidos estejam em processo tão intenso de sofrimento, que não consigam de imediato processar e organizar uma conversa com os pequenos, devem ser gentis consigo mesmos, mas, ainda assim, sinceros e respeitosos com as crianças. Uma sugestão é dizer-lhes algo como: "ainda não estou pronto(a) para conversar sobre o que está acontecendo, estou muito triste, mas prometo que, assim que eu conseguir, te explicarei tudo." Uma experiência assim (onde há tamanha vulnerabilidade e honestidade por parte dos cuidadores) tem enorme poder de ensinar a uma criança sobre empatia e fortalecer vínculos.

E, entendendo quão desafiadoras estas situações são, se for possível dentro da logística familiar, é importantíssimo buscar o auxílio de um profissional habilitado, seja para a realização de terapia para a criança, para o adulto ou mesmo terapia em família!



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p.s: li recentemente um livro lindo demais, super delicado e poético, que me foi o estímulo a escrever este texto! O livro, que se chama "Quando as coisas desacontecem", da escritora Alessandra Roscoe, editora Gaivota, aborda o "desacontecer das coisas" de forma leve e... sublime! E pode ser uma ferramenta a nos ajudar também em outros lutos (menos óbvios, mas que não deixam de ser lutos) vivenciados pelas crianças: divórcio dos pais, mudança de escola ou de cidade, adeus à chupeta, desmame, etc. 




Com carinho,
Paula Borges 
Pediatra