Tempo de tela. É possível ser saudável?

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Em fevereiro de 2022, apresentei meu trabalho de conclusão de curso na Residência Médica de Pediatria: foi uma revisão simples e pequenina, mas feita com muito compromisso e carinho, com o auxílio de uma orientadora maravilhosa. Reuni informações e escrevi "Uma revisão sobre a pandemia das telas", no qual falei sobre uso de telas por crianças e adolescentes, "linkando" o assunto com a pandemia de covid-19.


Tempo de tela: haveria mesmo um tempo seguro, saudável?



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Durante a pesquisa e a escrita, me vi refletindo acerca do tal "tempo de tela": haveria mesmo um tempo seguro, saudável? Então, trago pra cá um trecho do meu trabalho sobre isso.


Ao afirmar que haveria um tempo seguro de exposição a telas, sugeriria-se que dentro de um número de horas não haveria consequências negativas e que a partir deste tempo, haveria


Tempo de tela versus faixa etária

Sociedades e academias de saúde determinam tempo de tela de acordo com a faixa etária (tabela 1), mas isso tem sido questionado, pois ao afirmar que haveria um tempo seguro de exposição a telas, sugeriria-se que dentro de um número de horas não haveria consequências negativas e que a partir deste tempo, haveria. Contudo, a maioria das recomendações são baseadas em consenso de especialistas, não havendo evidências robustas de que seja neste sentido que as telas sejam prejudiciais à saúde.


A ideia por trás desta crítica é que um jovem que permanece 1 hora brincando com um jogo virtual violento não teria a mesma experiência que um adolescente que pratica 1 hora de yoga guiada por aplicativo ou uma criança que permanece 1 hora em aula virtual de música, interagindo com o professor ou com seus pais. 



Tabela 1. Tempo de tela orientado por órgãos de saúde, de acordo com a faixa etária

Organização Mundial da Saúde (OMS)

Menores de 1 ano : nenhum tempo passivo em tela


2 a 4 anos : 1 hora por dia


5 a 17 anos : não apresenta um número de horas

Sociedade Brasileira de Pediatria

(SBP)

Menores de 2 anos : nenhum tempo de tela


2 a 5 anos : 1 hora por dia


6 a 10 anos : 1 a 2 horas por dia


11 a 18 anos : 2 a 3 horas por dia

Academia Americana de Pediatria (AAP)

Menores de 2 anos : nenhum tempo passivo em tela 


2 a 5 anos anos : 1 hora por dia


Maiores de 6 anos: não apresenta um número de horas

Sociedade de Pediatria do Canadá

Menores de 2 anos: nenhum tempo de tela


2 a 5 anos: 1 hora por dia


Maiores de 5 anos: não apresenta um número de horas

Departamento de Saúde do Governo Australiano

Menores de 2 anos: nenhum tempo de tela


2 a 5 anos : 1 hora por dia


5 anos a adolescência : 2 horas por dia em tempo de tela recreacional (não incluindo o tempo de tela necessário às atividades escolares)

Colégio Real de Pediatria e Saúde Infantil (RCPCH)

Não apresenta número de horas para nenhuma faixa etária 



Para que uma criança se desenvolva plenamente, nos aspectos físico, emocional, mental e social, é preciso que haja períodos diários de atividade física, contato com natureza, momentos de interação com família e amigos, períodos de ócio, sono de qualidade, tempo para higiene pessoal e brincadeiras. Podendo também ser incluído algum tempo de tela nesta rotina.


Então, falar somente sobre o tempo que se passa nas telas talvez não seja suficiente, sendo possivelmente até mais importante focar a atenção para o modo como as telas são utilizadas - quais locais, momentos, conteúdos, com quem e com quais objetivos -, mantendo-se o cuidado de não substituir atividades essenciais tanto para o desenvolvimento quanto para qualidade de vida, por tempo em telas.   


Falar somente sobre o tempo que se passa nas telas talvez não seja suficiente, sendo possivelmente até mais importante focar a atenção para o modo como as telas são utilizadas

 

Conviveremos com a tecnologia e as telas (vieram pra ficar, imagino), e elas podem ser nossas grandes aliadas, mas é importante que estejamos sempre reflexivos sobre o assunto, sobre o uso que fazemos, avaliando os efeitos em relação à saúde e qualidade de vida (seja dos jovens ou de nós, adultos).


Segue, então, algumas sugestões para uma relação mais saudável entre crianças e eletrônicos:


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  • Não leve as telas para os momentos das refeições
  • Na hora de dormir, substitua por um podcast de historinhas ou uma leitura
  • Se lhe vier à mente qualquer ideia (qualquer outra atividade), em vez de deixar os pequenos no celular, no ipad ou na TV... faça isso
  • Se for da sua vontade ou necessidade, dê o aparelho eletrônico na mãozinha da criança, mas escolha (você!) o que ela vai assistir ou jogar (ou dê opções e a oriente a escolher dentre elas). E esteja sempre por perto supervisionando
  • Entenda que é muito melhor permanecer 2 horas assistindo a um filme com conteúdo bacana (para a faixa etária ou contexto de vida) do que 30 minutos em redes sociais (porque rede social não é lugar para nossas crianças)


Com carinho,

Paula Borges

Pediatra